A globalização nos dias que correm não será muito mais que sinónimo de interesses económicos. Pois, além de ser um fenómeno da sociedade moderna, representa também um fenómeno histórico completamente inelutável, que tem haver com as maiores transformações ocorridas no Mundo nunca antes vistas. São as inovações tecnológicas, científicas e naturalmente a revolução informática das últimas décadas, mas tão mais importante, e contudo bem mais gravoso, as transformações económicas de natureza puramente especulativa, que terão sido o verdadeiro motor impulsionador da globalização.
Encontramos Estados-Nação, mais ricos, e logo, mais poderosos, que subjugam pelos seus interesses os mais pobres. Contudo, nas últimas décadas têm-se assistido a uma alteração deste paradigma. Assiste-se a uma substituição do poder dos Estados pelo das empresas multinacionais. As multinacionais dispõem de orçamentos que ultrapassam os de alguns Estados. Este poder económico foi alcançado pela sua incessante busca de maiores lucros, o que leva a uma política de deslocalização das suas fábricas para países onde os custos com a produção sejam os mais baixos. Têm acontecido no nosso país diversas situações que servem disso exemplo, como a “Rohde”, que deslocalizou a sua produção de Portugal para outro país onde o custo da mão-de-obra é extremamente mais barata, “atirando” assim para o desemprego mais de 900 trabalhadores, afectando toda uma comunidade em que estão inseridas estas empresas. São pessoas que, ficando sem trabalho, e sem alternativas na sua localidade, senão mesmo distrito, ficam sem perspectivas de futuro, que com o passar do tempo, acaba por criar situações de extrema pobreza, tendo as pessoas de “fugir” destas regiões para outras onde possam encontrar formas de subsistência, deixando para trás familiares e amigos, o que os leva a mudar a forma de viver o dia-a-dia visto encontrarem-se afastados do “seu” meio social em que estavam inseridos desde que nasceram.
O caso da “Rohde” é um entre muitos casos existentes um pouco por todo o mundo desenvolvido. São multinacionais que têm por política económica o lucro pelo lucro, não tendo qualquer preocupação social, como o respeito pelos Direitos Humanos, através de condições de trabalho minimamente dignas, o pagamento de salários justos, entre outros, ou preocupação ambiental pela região em que se encontram inseridas.
O professor e ilustre sociólogo Boaventura Sousa Santos é um, entre muitos que se opõem determinantemente a este modelo de globalização (hegemónico e neoliberal) respondendo a uma interrogação feita pelo “Diário de Notícias” por altura da reunião do “G8”, que se passou em Génova, Itália, a 22 de Julho de 2001, referindo que “este modelo de globalização não serve. […] Há um modelo alternativo que tem como objectivo a justiça social e o desenvolvimento sustentado.”
Tendo em conta que a globalização é um fenómeno inelutável, visto que afecta todo o mundo global, não faz qualquer sentido ser-se contra a globalização, da mesma forma que não se pode ser contra a força da gravidade. No entanto devemos esforçar-nos pela implementação de normas e regras nesta globalização de carácter neoliberal que é o capitalismo, tornando o mundo mais social, isto é, dando lugar a uma globalização com um carácter mais ético, englobando, para isso, uma justiça social, de respeito pelos Direitos Humanos e também ambiental, pela preservação dos equilíbrios dos ecossistemas, tão fragilizados que estão, devido à acção do Homem, como o que se vê no continente sul-americano com a devastação da floresta amazónica, por muitos considerada o “pulmão” do Mundo.
Assistimos a uma divisão do mundo entre ricos e pobres. Este fosso aumenta a cada dia que passa, estando os ricos cada vez mais ricos, e os pobres a serem cada vez em maior número, o que poderá, a breve prazo, levar a uma explosão social, conforme já o alertou ao mundo, o malogrado Papa, João Paulo II, em 2001, numa das suas homilias, em que disse que “o nosso Mundo está dividido, já não em blocos políticos e militares, mas por uma linha trágica entre os que podem tirar partido da globalização e os que são excluídos.”
É certo que o Mundo sempre esteve dividido, mas de forma diferente, entre potências político-militares. Hoje, está dividido, mais do que nunca, porque hoje todos nós temos a consciência disso, e devemos isso à própria globalização, que proporcionou uma fantástica evolução dos meios de informação, como a internet, a televisão por satélite, possibilitando uma rápida transmissão de uma mesma informação através de vários meios e entidades, sendo inconsequente qualquer tentativa de censura da parte de entidades locais. Toda esta informação que nos chega a casa todos os dias de diversos pontos do globo, deu-nos a consciência de que todos nós vivemos num só Mundo, seja pela facilidade e rapidez com que podemos viajar entre continentes, seja pela uniformização crescente da forma como nos vestimos (encontram-se facilmente indivíduos num qualquer bairro da periferia da cidade de Lisboa ou Porto, com uma vestimenta em tudo semelhante aos indivíduos dos bairros de classes mais baixas situados na periferia da cidade de Nova Iorque, que fica do outro lado do oceano), seja pela uniformização de hábitos alimentares (restaurantes de fast-food são disso exemplo, como a “MacDonald’s” que está presente, praticamente em qualquer “canto” do mundo, tanto podemos encontrar numa cidade portuguesa: Lisboa, Aveiro, Porto, Coimbra, Vila Real; como no Japão, França, Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha, África do Sul, Rússia, Brasil, Canadá, E.U.A, e em muitos outros lugares).
Contudo, devido a toda esta transformação pelo qual o mundo tem atravessado, a globalização coloca-nos agora muitos outros desafios de natureza global que afectam todos os Humanos. A Paz mundial, o desenvolvimento sustentado, a boa governabilidade, com vista à justiça social adoptando a política caracterizadora do “mundo-social”, a luta contra a violência e contra o terrorismo e o “ciber-terrorismo”, a luta contra a criminalidade internacional organizada e as máfias instaladas, o combate ao tráfico de droga, de armas, às redes de prostituição, etc., a luta pelo equilíbrio ecológico do Planeta, pela segurança alimentar, e também contra as grandes pandemias como a SIDA, a Gripe A. Hoje, tudo o que é importante é global. Daí que a luta em defesa da Paz, da Democracia e do Bem-Estar dos seres humanos embora se deva travar a nível local, regional e nacional, tenha igualmente, uma irrecusável dimensão global, daí o lema “pensar global, agir local”.
Todos nós já chegámos à conclusão de que um determinado acontecimento, num determinado lugar, por muito remoto que possa ser, terá uma influência em todo o mundo, como foi por exemplo a Gripe A que se iniciou numa pequeníssima localidade na América do Sul e alastrou-se para todo o Mundo, passando a Pandemia.
Compreendemos agora que as grandes causas nos dizem respeito a todos, sem excepção, pois, todos esses acontecimentos se passam dentro da nossa “Casa Comum”, a Terra, influenciando as nossas vidas no nosso dia-a-dia, tal como o referiu Mário Soares, um convicto e acérrimo lutador pela “Globalização Ética”, em que disse numa conferência realizada no “Club do Luxemburgo”, em 27 de Fevereiro de 2002, que “todos os problemas, que se manifestam nacionalmente, só poderão ter resposta adequada a nível global. Nenhum Estado, por si só, os pode resolver.” Isso mesmo se verificou com a Pandemia da Gripe A, em que todos os países trabalhando em equipa conseguiram de forma rápida, sob orientação da Organização Mundial de Saúde, travar o avanço trágico que aquela Pandemia estava a tomar, não deixando, contudo, de ceifar centenas de vidas humanas. O que não seria se não tivesse havido esse trabalho conjunto entre Estados? Provavelmente uma catástrofe humana, só comparável com as pragas e a peste negra de séculos passados em que reduziram drasticamente o número da população activa.
Visto que já não se pode tratar tudo como um facto isolado, impõe-se uma questão: como se deve orientar a globalização segundo os valores éticos numa amplitude global? Esta questão conduz-nos ao reconhecimento da necessidade de uma nova ordem política e moral mundial, que, segundo diversos filósofos, políticos e outros, passa por uma natural reestruturação das Nações Unidas, aliás, assunto já discutido na Cimeira do Milénio realizada entre 6 e 8 de Setembro de 2000, em Nova Iorque, e que culminou com a assinatura da “Declaração do Milénio”:
[…]“Os líderes definiram alvos concretos, como reduzir para metade a percentagem de pessoas que vivem na pobreza extrema, fornecer água potável e educação a todos, inverter a tendência de propagação do VIH/SIDA e alcançar outros objectivos no domínio do desenvolvimento. Pediram o reforço das operações de paz das Nações Unidas, para que as comunidades vulneráveis possam contar connosco nas horas difíceis. E pediram-nos também que combatêssemos a injustiça e a desigualdade, o terror e o crime, e que protegêssemos o nosso património comum, a Terra, em benefício das gerações futuras. Estão preocupados – aliás, justamente – com a eficácia da ONU. Querem acção e, acima de tudo, resultados.[…]Está ao seu alcance (dos dirigentes das Nações Unidas), e portanto compete-lhes a eles, alcançar os objectivos que definiram.[…]”
Kofi A. Annan, prefácio da Declaração do Milénio, 2000.
É, assim, de extrema importância que todos os objectivos inscritos na “Declaração do Milénio” sejam de facto alcançados, visto ser em si mesma, um superior interesse para a Humanidade e o seu futuro. A globalização ética entrou já na agenda política mundial, resta-nos a todos nós unir esforços e “lutar” para que se torne uma realidade num futuro próximo. Esta luta deverá ser pacífica, olhemos para exemplos como os de “Mahatma Gandhi” e de “Martin Luther King, os quais atingiram os seus objectivos, optando por esta via, não violenta, certamente que será a mais eficaz para expressar a revolta contra as injustiças sociais, contra as gritantes desigualdades do Mundo de hoje. Um Mundo alternativo é possível, com justiça social, pleno emprego, etc., e em última instância o alcance da felicidade de vivermos num Mundo livre e justo.
MiguelPinho